Expressa o facto no momento em que se fala. Pessoal e transmissível.
22
Out 12
publicado por José Maria Barcia, às 00:07link do post | comentar | ver comentários (3)

‘’O que queres ser quando fores grande?’’ – perguntou o meu avô. É esta a minha primeira memória dele. A primeira e a que mais vezes ouvi. Perguntou-me, sempre que me via – o que queria eu fazer com o meu futuro.

 

Era uma meia-pergunta, já disfarçada com a resposta que queria ouvir. Era-lhe estranho que eu, o seu primeiro neto, ainda não soubesse o que queria ser. Nem se assemelhava à profissão dele. Era ser. Para o meu avô, não existiu profissão. Existiu o que ele foi. Piloto.

 

‘’Quando era pouco mais velho que tu – dizia-me quando eu tinha 6 anos – já sabia o que queria ser. Vi um hidroavião a aterrar em Belém, onde morava, e vi o piloto com o cachecol ao sabor do vento e disse: eu quero voar’’. Esta era a segunda metade da pergunta – convencer-me a ser piloto. Das já esquecidas vezes que me contou, nunca deixei de ver o brilho nos olhos de quem seria capaz de voltar ao início, até ao dia em que viu o piloto do cachecol. Fazia parte da história um amigo do pai que lhe disse que ele nunca iria ser piloto, jocosamente, um típico velho do Restelo. Que lhe tivesse prendido as mãos, nunca conseguiria impedir aquele miúdo de dentes de leite a voar. Quando decidiu o seu futuro, fez mais que uma escolha. Ganhou uma certeza e passava-me isso. Foi feliz a fazer o que te escolhido como se não existisse livre arbítrio mas apenas sorte em conseguir tropeçar no destino acertado. Nunca me conseguiu vender a ideia de ser piloto por muito que tentasse explicar os benefícios de ser piloto, era impossível traduzir em palavras aquele sentimento. Ainda hoje, não sei. Por mais que tente, contento-me sabendo que ele sabia o que era voar. Esta é a primeira memória que tenho do meu avô. Desde cedo, já sabia que ia ser assim, simplesmente feliz. Os outros chamavam-lhe comandante. Estranhava isso. Era o avô. E aposto que preferia esta palavra.

 

Ensinou-me a pescar. A dar o nó certo no anzol – técnica que já me esqueci – mas lembrar-me-ei sempre que foi a única vez que o subestimei. Pensava que já era  altura de tomar conta dele por ser o meu avô mais velho. E com toda a perícia suficiente para colocar um puto de 11 anos no sítio lá ia ele de nó em nó, atando anzóis porque eu não conseguia. Pesquei dois peixes nesse dia e nunca mais tentei. Ainda hoje não consigo dar o nó. Ainda hoje me questiono do nó que ele dava, desafiando as leis da física.

 

Aprendi muito com ele e o que ainda não pus em prática, guardei para um dia mais tarde ser. Quando nasci, ele tinha 74 anos. Era um miúdo, ele. Ainda passei bons anos a conhecê-lo. A apreciar cada história que, com a devida e merecida nostalgia, me contava. Ele que sempre foi um senhor. Sempre de fato, gravata e colete, pin do colégio militar. Ele de cabeça nas nuvens, não por distracção mas porque sabia que só acima daquilo que está ao nível de todos, era feliz.

 

O meu avô morreu.

 

Com 96 anos, faz o último voo. Despede-se de vez da cama de hospital e da cadeira de rodas do lar. Larga a doença que o impedia de andar, falar e até reconhecer quem amava.

 

Das várias coisas que aprendi, foi assim que descobri que a vida é injusta. Passava-me pela cabeça como se podia passar a vida a voar, a ver o mundo reduzido à sua simplicidade minúscula e de repente, de grande como o mundo,  para pequeno. Do tamanho do sítio de onde já não conseguia sair.

 

Aqui entre nós, avô: ouvi sempre com um sorriso orgulhoso as histórias que me contavam de ti. Da estima que os outros tinham por ti. Da vida boa que tiveste – essa coisa que todos invejam, mas reservada a poucos. Tiveste uma grande vida. E também me lembro que dizias que a vida passou a voar. Literalmente e não. As coisas passam rápido quando gostamos do que estamos a fazer, não é?. E agora que foste ter com a tua Zézinha, minha mãe e tua filha, finalmente consigo descansar pelos dois. Porque só agora soubeste que ela partiu primeiro que tu e porque sei que ela já estava ansiosa à tua espera. Imagino-vos agora, abraçados, compensando os anos que passaram e não  puderam estar assim, abraçados. Por último, não vou ser piloto. Estranhamente por ser teu neto, tenho medo de voar.

 

Adeus Avô. Espero que não haja muita turbulência nesse último voo. E manda um beijinho à Mãe.

 


11
Out 12
publicado por José Maria Barcia, às 15:11link do post | comentar

 

Carlos Zorrinho disse à TSF que a bancada parlamentar do PS poupou ao só pagar 3700 euros por mês para quatro carros. Defende-se, dizendo que o grupo parlamentar tem um presidente, 12 vice-presidentes e 74 deputados. E precisam de carros no valor de 60 mil euros. Vai na volta e isto é populismo. Porque os deputados precisam de luxos e comodidades para exercer o seu mandato sem quaisquer problemas. Que um custo de 3700 euros por mês não é nada comparado com o défice de muitos mil milhões.

 

Isto é tudo uma palhaçada. O deboche – não há outra palavra – atinge proporções gigantes. O partido da oposição que não é oposição porque prefere abster-se de tudo é recompensado com carros de luxos. E o líder da bancada parlamentar ainda tem a lata, ou menos, a insensibilidade de dizer que poupou com este negócio. Junte-se isto ao golfe de 50 mil euros para os senhores deputados e pergunte-se: ‘’por que raio todos dizem que os políticos são maus?’’.

 

Ainda não sei...

 

 

Mais ridículo ainda é só agora começarem a aparecer as negociatas de Pedro Passos Coelho. Desta vez com o suspeito do costume – Sua Excelência, o pseudo-engenheiro ou doutor, Miguel Relvas. É preciso um jornal estar a acabar para sair esta noticia: no Público ‘’Relvas ajudou empresa ligada a Passos a ter monopólio de formação em aeródromos do Centro’’. Portanto, Passos Coelho, à altura, um mero gestor, usa Miguel Relvas, um mero secretário de estado para ganhar dinheiro. Faz sentido. Tudo muito legal.

 

Era o tempo das vacas gordas e os fundos europeus jorravam dinheiro por este pedaço de terra à beira-mar plantado. E há sempre as ervas-daninhas que se imiscuem nas águas de todos. Hoje, um é primeiro-ministro e o outro é ministro. São os melhores amigos e, tal como as hienas se juntam para atacar o que quer ou quem quer que seja, um protege o outro e vice-versa.

 

Concluindo, os grandes actores políticos de Portugal continuam a comportar-se em aura de impunidade. São eles as vitimas porque nunca têm culpa. Não são hipócritas porque esses sabem quando erram. São piores, são escumalha sem escrúpulos. São gente deslumbrada com dinheiro e poder. E isto, não é populismo na simples medida em quem nos governa é assim tão básico. Para eles, basta isto. No fundo, não passam de um bando de hienas.


10
Out 12
publicado por José Maria Barcia, às 00:06link do post | comentar

 

A normalidade é aborrecida. O tédio destrói tanto como ansiedade. No primeiro estado inventa-se. No segundo, deixa-se ir. Em ambos, é-se motivado pelo errado das acções.

 

A normalidade de uma vida deveria consistir numa vida pacata a roçar o inócuo. Nascer-viver-morrer e já está. No entanto, esta coisa de ser normal nunca é como aparece nos livros. A média – enquanto espelho da normalidade – é, na estatística, o valor que raramente se coaduna com a realidade. Em média um português a trabalhar por conta de outrem recebe 867,5€. Na realidade, há quem aufira  850 ou 900. Admite-se até que receba 860. Mas a média de salários, assim como a normalidade na vida, é metafísica. O patamar daquilo que não é estranho só aparece nos livros e na teoria que um e outro e tantos têm na cabeça. Por outras palavras, todos sabem o que é ser normal. Na prática, ninguém o é.

 

O que é ser normal? É não esperar muito e prevenir o pouco? É, depois de nascer, procurar ser e estar melhor? Ser assim é estar numa curva ascendente até ao dia em que se morre? E para ser normal a morrer, tem de ser durante o sono?

 

Indo por partes: à nascença. Aquele ou aquela que nasce com os pés primeiro hipotecou as hipóteses de uma vida pacata. Calmo, sossegado, neutro. É isto ser normal? É aborrecido. É maçador. Pior, é chato.

 

Depois, na infância. É preciso ter amigos mas nenhum que nos faça cometer loucuras ou ficar de castigo. As pessoas normais nunca são castigadas. Logo aqui, um pode concluir que a normalidade implica factores externos normais como os amigos e a família. Dito isto, é muito difícil levar uma vida normal mesmo antes dos três anos.

 

A adolescência. Madrasta de uma vivência. Ninguém gosta da adolescência, mesmo que não o consiga admitir. A adolescência é quando nos apercebemos que afinal a normalidade é muito difícil de atingir. É neste altura que se diz ‘’eu queria ser como ele que é normal’’ sem saber que ele diz o mesmo de ti. As dúvidas surgem antes dos 18 anos. Os medos desenvolvem-se e as defesas começam a criar fundações para as muralhas que se hão de construir. Pessoa diz ''Protege de muros quem te sonhas''. Isto vem na adolescência. Os sonhos por mais escondidos, ficam sempre dentro de uma pessoa. Numa quinta gaveta no armário mais maltratado da memória. Perdido numa sala com a chave em parte incerto. Coberto por caixotes cheios de térmitas. Num armazém. No fundo da cabeça. Quem tem sonhos nunca é normal nem sequer pode almejar a tal. O sonho tem sempre algo de irrealista. E o normal é sempre real.

 

Depois dos 18, suponho que seja sempre a piorar. A tal curva ascendente torna-se um rodopio de gráficos que comparam ganhas e perdas de não ser normal.

 

No fundo, ser normal, calmo, estável, sem grandes euforias ou depressões é aborrecido. Ser normal é aborrecido. É comida sem sal, verão ser calor, inverno sem chuva. Ser normal é viva sem sal nem calor nem chuva.

 

Se bem que a normalidade deve ser defendida em alguns aspectos. Em dose q.b. é bom não ser mas estar normal. Quase como um refúgio ou uma carta de trunfo que safa a mão na mesa. ''Agora deixa-me ser normal só para descansar um pouco''. Se a vida fosse um jogo, estar normal seria pedir um tempo. Para definir estratégia, motivar os jogadores ou simplesmente descansar. Sim, ser normal pode ser só isso: um pouco de descanso. Que, diga-se, às vezes cansa e chateia. Mais que aborrecer, a normalidade chateia horrores.


09
Out 12
publicado por José Maria Barcia, às 23:36link do post | comentar

É mais difícil não escrever a ter de escrever.


25
Set 12
publicado por José Maria Barcia, às 00:28link do post | comentar

 

As cartas de amor são difíceis de escrever. Só parece fácil com aqueles que se usam do amor como o sentimento mais simples. São esses que provocam inveja nos outros. Estes, os que pensam o amor como um cientista pensa a ciência, serão sempre amargurados com os primeiros. Pensam como pode ser possível ser tão fácil escrever uma carta de amor. Ser tão honesto, tão cor-de-rosa e ao mesmo tempo tão cru na descrição da necessidade de complementaridade no outro. Para esses, o outro é quem os faz completos. Vulgo cara-metade.

 

As cartas de amor são difíceis de escrever quando deveriam ser fáceis de sentir. Declamar a entrega sentimental de um a outro deveria ser tão inocente como fazê-lo. uma carta de amor a sério é agarrar o visado nos versos. Para se escrever um texto assim, não é preciso ser poeta nem tanto dominar as letras. Basta sentir. O amor em si – enquanto condição e não como fim – deveria fazer voar. Ser livre de poder ir a qualquer sítio. O objecto amado, reciprocamente, se torna  o amador. A amada está num pedestal. O amor é sorte. E é sorte conseguir escrever cartas de amor com a facilidade de respirar.

 

Dizem muitas coisas sobre o amor. Dizem que dói ao mesmo tempo que promovem a felicidade de amar e ser amado. Então uma carta de amor é esta dicotomia entre dor e prazer, entre sofrimento e felicidade, entre depressão e êxtase. O amor é uma coisa muito estranha. E como tal, as cartas de amor são bipolares. Notar-se-ia, nas verdadeiras cartas de amor, o ressentimento de discussões mais resolvidos e, uns parágrafos depois, na indiferença perante tais quezílias. Antes, na primeira frase, uma declaração que dispusesse todas as defesas a favor do outro. ‘’Eu amo-te’’ ou ‘’És a luz da minha vida’’ – expressões lamechas – deveriam ser regra na construção de cartas de amor. Ponto número 1 do manual de escrita de cartas de amor: declarar amor do modo mais irritante para quem não conhece ou tem o dito. Por fim, deveriam acabar com uma rendição poética-sofrida em que o escritor se rendia, formalmente, ao óbvio. A pessoa a quem é escrita a carta é maior que o mundo. Aliás, para quem escreve a carta – e a escreve a sério -  o mundo é mínimo comparado com ele ou ela que lê.

 

As cartas de amor são difíceis de escrever porque existe uma generalidade de medo na entrega no amor. É difícil arrancar metade de si e dar a outro. Deve doer. Dói. Nessa desistência de metade de nós, há o sacrifício exigido pelo amor. É essa dor que faz as cartas de amor serem boas. Isso ou a ignorância do que se está a dar. Aos primeiros, depois de dado, nunca mais retorna. Está entregue e lá vai ficar para sempre quando a eternidade é muito tempo. Para os segundos, os virtuosos que nada sabem e apenas sentem, podem dar e ir dando. Não sabem, não sentem falta. Esses são os verdadeiros amadores e escritores de cartas de amor. Porque não dói dar metade e porque conseguem ter várias metades.

 

São os lamechas e os tontos que sabem o que é amor. E só o sabem porque não pensam nele. Não o esquematizam nem o analisam. É como respirar. É inconsciente e é isso que os mantém vivos. Não há melhor carta de amor que daquele ou daquela que está apaixonado. Não pensa, só sente. Aos outros, só nos resta invejar.


20
Set 12
publicado por José Maria Barcia, às 14:04link do post | comentar | ver comentários (1)

Imagina que eras tu a sair da cama nesse dia. Desanimado, caminhavas para o duche para acordar. Depois da cama, resta-te apenas o abraço quente do chuveiro antes de enfrentares o dia que ainda não começou.

 

Sais de casa e a claridade ainda te dói nos olhos. Pensas que aquele era um bom dia para teres ficado na cama agarrado aos teus. Estás, neste momento, em processo automatizado. A ir para o trabalho, a ir para a faculdade, a ir para a escola. Para quer que estejas a ir, podias estar feliz por não estar a fazer esse caminho.

 

Consegues imaginar-te? É fácil, provavelmente passaste e ainda passas por isto.

Agora tenta de uma maneira diferente. Tenta imaginar o que é um dia em que sais de casa com os olhos a lacrimejar. Fechas a porta de casa, sabendo que os teus sonhos não foram avante. Não és metade do que imaginaste ser. A culpa pode ser tua. Podes ter tomado decisões erradas ao longo da tua vida. Ou tiveste azar, apenas.

 

Se puderes, hoje olha para os teus filhos. Para os teus pais, irmãos ou irmãs. Olha para os teus avós ou para os teus amigos mais chegados. Até onde irias por eles?

 

Se não por ti, então que seja pelo outros. Há dias que não acabam. Em que a ansiedade de ir dormir é maior que a vontade de estar acordado. A dormir podes sonhar. Deves sentir uma força igual à necessidade de comer de ser para ti e para os outros. Para impedir tristeza. Só e tão simples quando isto. Não és responsável pelos outros mas deves preocupar-te. Não precisas de ser herói conhecido em capas de jornal, precisas de saber o que fazer quando o momento te perguntar: ‘’E agora, queres ser herói?’’. Ninguém te vai dar crédito por isso pois ninguém vai ver. Mas não é preciso. Talvez, nesse dia, durmas melhor. E aquele ou aquela que ajudaste também. Talvez essa pessoa, nesse dia, não chore. Por tua causa.

 

Chega?

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19
Set 12
publicado por José Maria Barcia, às 17:31link do post | comentar


Roubado do 31.

publicado por José Maria Barcia, às 12:33link do post | comentar

 

Faltam tomates aos portugueses. Não a todos, claro. Há casos de pessoas com uma coragem acima da média do país. Veja-se o caso mais recente de Adriana Xavier, a jovem estudante de 18 anos que abraçou Sérgio, o polícia de choque com coração mole. Foi preciso coragem da parte dos dois. Ela, porque abraçou uma figura potencialmente violenta. O segundo, porque se deixou abraçar, naquele momento, naquela situação.

 

A fotografia dos dois correu o mundo. Mostrou que, afinal, Portugal ainda tem alguma coisa para ensinar. Depois do 25 de Abril, onde se mudou de regime com flores, mais uma vez, nós, os portugueses fomos diferentes. Há amor no protesto português. A violência pode ser trocada a qualquer momento por um abraço sincero.

 

Adriana, a Pocahontas portuguesa de cabelos compridos e encaracolados, pousa a mão no coração de Sérgio. A figura primeira de autoridade à porta da troika, mesmo com colete à prova de bala, deixa-se contagiar pelo toque. Mesmo com aquele equipamento, Sérgio sentiu. Mérito de Adriana, que teve coragem de o tocar. Porque estava certo fazê-lo. Porque sentiu que ele merecia ser tocado. Mérito dele, porque deixou.

 

O resto está na imagem. Ele não a empurra, não grita com ela, não foge. Rodeados por fotógrafos e manifestantes, jornalistas e outros polícias, aquele momento foi só deles. Durante os poucos segundos que falaram, acredito que, para eles, o resto não estava lá. Estavam sozinhos num instante que não doía. Não havia barulho, nem confusão. Nesse momento a preocupação dos dois desconhecidos era de proteger o outro. Adriana sentiu a tristeza no olhar de Sérgio e, quase obrigada por um inocência cada vez mais rara, abraçou-o. Sérgio não quis que ela se magoasse. Nem por ele, nem pelos outros. O toque suave no braço de Adriana enquanto olha em seu redor conota este sentimento de protecção. 

 

Enquanto Adriana parece rendida à fragilidade dentro do equipamento de Sérgio dizendo quase ''Eu sei que és como eu'', Sérgio honra a farda, honra a própria honra. Agradece o gesto de Adriana fazendo o que melhor sabendo: protegendo.

 

Esta fotografia correu o mundo. É uma imagem muito bonita, do tamanho do abraço deles. Que seja exemplo. Que emocione. Que tenha o mesmo resultado que teve comigo - ainda vale a pena. São momentos destes, imortalizados por uma câmera que nos fazem crer que ainda vale a pena. O que quer que seja, desde que seja bom. O exemplo de Adriana e Sérgio é bom porque é sincero. É amor, no sentido mais belo da palavra. É amor por um desconhecido, retribuído à desconhecida.

 

A realidade é dura. Para ela, um futuro incerto e cada vez mais assustador, para ele um manifestação onde tomates e petardos, garrafas e pedras voaram na sua direcção. Por momentos, nada disso interessou. E só foi preciso um abraço.

 

À Adriana e ao Sérgio, obrigado.


18
Set 12
publicado por José Maria Barcia, às 20:34link do post | comentar

 

 

Fui à manifestação do último sábado. Mais que uma mera manif, foi um protesto. Mais que isto, foi um desabafo. Em Lisboa, onde estive, as pessoas desabafaram. Pouco interessou o tema que levou mais de meio milhão de pessoas à rua - ''que se lixe a troika, queremos as nossas vidas de volta''. Aliás, este título é injusto, na medida em que os nossos credores acabam por ser os mais honestos neste panorama de pré-crise política e institucional.

 

O governo falho na aplicação das medidas de corte da despesa. Aquilo que hoje se considera austeridade, é para o governo uma conta tecnocrata entre défice, juros e impostos. Para este governo, tudo o resto tomou um lugar secundário. Acima disto, está uma opinião generalizada de que não há ministros bons. Começando, obviamente, por Miguel Relvas. O ministro da licenciatura por equivalência, pressões aos jornalistas e ligações demasiado debochadas a grupos de poder como a maçonaria, é o primeiro da lista de desagrados. Num país civilizado, isto seria intolerável. O estilo mafioso de agir de Relvas devia fazer escola em Sicília. Provavelmente, com equivalência.

 

Em segundo, os ministros do CDS: Paulo Portas, Assunção Cristas e até Pedro Mota Soares. Se o primeiro ainda não percebeu que um coligação implica jogo de equipa e não jogo de política, a segunda não sabe o que está a fazer. Creio que as suas motivações podem ser melhores - católica praticante e da escola da democracia-cristã - só tem um problema: não seria ministra para este tipo de governo. A agricultura continua um desastre e não é por rezar que chove mais ou há menos incêndios. Por ultimo, Pedro Mota Soares, eleito o melhor deputado na legislatura passada, embrulhou-se no código contributivo, fazendo aquilo que está à mostra: cada vez menos liberdade por cada vez existirem mais e mais altos impostos. Veja-se o caso dos recibos verdes, tão bem explicado por Alexandre Borges, no 31 da Armada.

 

De seguida, Vitor Gaspar. O ''ditador'' alcunha carinhosa dos colegas em Bruxelas, entrou na cena política como um perfeito desconhecido. A sua maneira de falar, aliada a parecer demasiado sério e até com um humor europeu simpático, transformaram-no no preferido de muita gente. É graças a ele que as duras medidas foram toleradas. Se Gaspar diz, então deve ser verdade, ouvia-se. Infelizmente (para ele), o estado de graça acabou. O ministro é o grande culpado da manifestação de 15 de Setembro.

 

Por último, Passos Coelho. Admito que no inicio achava que o homem ia ser diferente. A sua equipa de assessores prometia muito. Era o liberalismo com tomates que este país precisava. Era um governo que ia fazer muitos inimigos mas os inimigos certos. Eu estava errado. Porque eles também. Faltou estudo a este governo. Faltou, talvez coragem. De certeza que faltou vergonha na cara.

 

Em relação aos outros ministros nem vale a pena falar. De Álvaro a Aguiar-Branco, passando por Paula Teixeira Pinto, o conjunto de erros, incompetências e simples idiotices fala por eles.

 

Portanto, será justo admitir que este governo - tal como o anterior - tem os dias contados. Já chega. A solução apresentada não é do agrado dos portugueses. E a razão da manifestação, protesto ou desabafo de Sábado passado é essa mesma. O que estão a fazer está mal. Prova disso, mais que o número de gente envolvida, foi o tom. O tom, desta vez, foi agressivo. Quando 500 mil pessoas gritam o hino do país com raiva, alguma coisa está mesmo muito mal. Talvez seja hora de ter cuidado com os próximos passos, Passos.

 

O povo perdeu a paciência mas ainda não perdeu a calma. Ainda.


13
Set 12
publicado por José Maria Barcia, às 16:06link do post | comentar

 

Já se disse muito sobre o povo português. Como qualquer outro, temos as nossas qualidades e defeitos. Somos assim e assado. Conseguimos ser os melhores do mundo e ao nosso lado, na mesma equipa os piores. Temos orgulho e vergonha, muitas vezes da mesma coisa. Somos complicados, somos simples. Portugal é um paradoxo. Não há dois portugueses iguais. Não há ‘’o português normal’’. Ninguém, aqui na ponta da Europa, aceita ser só mais um. Ao mesmo tempo, somos os primeiros a acomodar ao estado em que nos encontramos. Não somos a Grécia. Todos os dias vemos a nossa liberdade a cair um bocado mais.

 

Cada dia que passa, as dificuldades aumentam. Cada dia que passa, há sempre um ‘’mas’’. Por exemplo, os impostos aumentam mas ainda dá para ir para a praia; perdi o emprego mas não gostava muito dele. Há, neste sebastianismo alegre, um sentimento de que as coisas podiam ser sempre piores portanto, vamos com calma.

 

Acho que já chega. Basta de tolerar o que não merece. Basta de ter medo. Basta de austeridade.

 

Nem falo por mim, felizmente tenho sorte de me faltar pouco. Falo por quem vejo a passar fome, a chorar por não conseguir alimentar os filhos ou simplesmente por não ter dinheiro para um café. Quero falar de quem tem os sonhos destruídos porque é cada vez mais difícil seguir esse caminho. Se Portugal merece, porque se tolera os corruptos, os ladrões, os saqueadores do meu e nosso país? Merda de país que nada faz quando as coisas são evidentes. País pequeno, esta coisa na arrecadação da União Europeia. Onde está a grandeza que só se encontra nos livros de História? Onde está a virtude num povo que sai a rua mas nada faz?

 

No fundo, somos todos cobardes. Somos acomodados e preguiçosos. Já chega. Falta-nos educação e inteligência. Falta-nos civismo. Só um povo consciente pode mudar as coisas. Acordem. Às vezes custa. Mas desta vez vale a pena. Há dias que tenho orgulho em ser português. Que defendo a minha pátria como se defende a família. No entanto, nos outros dias, tenho vergonha.

 

Portugal é o aluno que podia ser dos melhores mas que se desleixa. É um mau aluno. Portugal sou eu. És tu. Somos todos. E se somos todos e isto continua assim, a culpa não é só de quem tem cadeira em São Bento.

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04
Set 12
publicado por José Maria Barcia, às 15:38link do post | comentar

20
Ago 12
publicado por José Maria Barcia, às 14:58link do post | comentar | ver comentários (3)

Olá Deus,

 

Já ouvi falar muito de ti. Coisas boas, outras nem tanto. Eu, eu nem gosto muito de ti. Sempre te vi sobrevalorizado e nunca deste provas disso. Permites coisas que não deverias e dizes – ou dizem por ti – que é livre-arbítrio. Comecei a não gostar de ti por causa daqueles que te representam. São as igrejas e religiões que, no inicio, me criaram um desconforto em relação a ti. Quando era pequeno, diziam que eras perfeito e capaz de tudo. Diziam também que sabias as coisas antes de acontecerem. Pior ainda, a maneira como eras defendido nunca se justificava à tua suposta perfeição. Sem falhas, devias fazer mais e melhor. Devias impedir catástrofes, doenças e acidentes. Devias ajudar. Se eu fosse Deus, não conseguiria manter-me quieto enquanto via todo o mal a acontecer.

 

Mas, como deves saber, o rascunho deste texto é muito mais agressivo. Enquanto o escrevia – e admitamos que consegues ver tudo – até te insultei. Chamei-te idiota, disse que seria melhor Deus que tu em qualquer situação. Se tu existes, como é que deixaste que me acontecesse tantas coisas más? A mim, e a tantos outros? Como sabes, escrevi-te uma carta e fui dormir. No dia a seguir a minha avó conseguiu mexer a perna esquerda. Ela teve um AVC e eu critiquei-te. Insultei-te. Apetecia-me bater-te por permitires uma coisa destas a uma pessoa que te ama muito mais que eu alguma vez conseguirei. No entanto, no dia a seguir, quando acordei, disseram-me que ela mexia a perna. E isso é bom e, melhor, não é normal para quem tenha tido um acidente 24 horas antes.

 

Portanto, agradeço-te. Ontem foste Deus. Ontem, quando me ligaram a dizer que ela mexia a perna, acreditei que afinal até és bom. Sabes, ficar parado a assistir não é benevolente. Olha para nós, pessoas, a tua criação. Não somos civilizados. Somos frágeis. Temos acidentes e doenças. Quando não é isto, fazemos guerras e tornamos uma vida mais barata que o ar que respiramos. Tens de ter cuidado connosco. Por alguma razão, há quem te chame Pai.

 

Deus, obrigado. E continua o bom trabalho. Quero a minha Avó de volta. Deves-me isso.

 

 

 

Adeus.

 

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24
Jul 12
publicado por José Maria Barcia, às 17:52link do post | comentar

Sinusite Crónica


23
Jul 12
publicado por José Maria Barcia, às 18:12link do post | comentar | ver comentários (3)

Ontem fui almoçar a Setúbal. Até aqui, tudo normal. Ao sair do restaurante, deparo-me com uma coluna de fumo a avançar céu acima. Fui em direcção ao fumo que muitas vezes significa fogo. À chegada, o ar já era irrespirável e o fogo atingia tamanhos de um prédio de quatro andares.

 

 

Ao que parece, começou tudo num pequeno incêndio dentro de uma espaço que parecia uma quinta abandonada. Peguei no telemóvel e decidi tirar fotografias e filmar algumas coisas, tanto que não havia jornalistas no local nem as redacções mostraram algum interesse em ir cobrir este acontecimento.

 

À medida que me ia aproximando do calor, chovia cinza, o céu azul já não se via e manter os olhos abertos era muito difícil. Decidi manter-me por ali. Entretanto, começo a ouvir gritos de ajuda por parte de alguém dentro da quinta - precisava de ajuda a tirar os carros. Quando me aproximei, já tinha conseguido tirar de lá todos os carros. Por esta altura, já se viam alguns camiões-cisterna dos bombeiros de Setúbal e Sesimbra.

 

Comecei a subir a rua de modo a encontrar o foco do incêndio. Foi nesta altura de guardei o telemóvel e peguei num balde. Tinha entrado numa casa que tinha as chamas muito próximas do muro. Nesse momento, aquilo que poderia ser um furo jornalístico passou para segundo plano. Ao entrar na residência, desci em direcção ao muro onde já se viam as chamas a cerca de dez metros. Uma rapariga deu-me uma máscara daquelas do tipo de hospital e comecei a agarrar em baldes, enchê-los de água e passá-los para as linhas mais próximas do muro e das chamas.

 

Pouco depois, alguém grita que era preciso mais uma pessoa em cima do telhado em cima do muro. Saltei lá para cima e dali, consegui ver a proximidade assustadora das chamas. E foi aqui que me comecei a impressionar. Primeiro, a organização. Na casa, estavam cerca de 20/30 pessoas, decerto muitos - que tal como eu - só foram lá ajudar, mas era espantosa a capacidade de funcionamento deste grupo. Não havia tempos mortos, quem estava em cima do telhado (e eram três pessoas, contando comigo) nunca ficava sem baldes cheios de água. Segundo, o sacrifício. No telhado, no canto onde as chamas estavam mais próximas estava lá um homem que não arredou pé. Onde eu estava, ligeiramente mais protegido das chamas, o bafo quente que de lá vinha já era insuportável. Os meus olhos ardiam, muitos vezes não conseguia estar de frente para as chamas, mas esse homem nunca parou. Por essa altura, numa troca de baldes, do chão para o telhado tive a oportunidade de observar o que se passava lá em baixo. Baldes, água, mangueiras, máscaras, enxadas e pás de agricultura de um lado para o outro num caos completamente organizado.

 

Depois de algum tempo lá em cima, onde só me conseguia refugiar atrás da chaminé, começamos a vencer as chamas. A direcção do fogo virou da casa para o terreno ao lado que se encontrava abandonado. Tinha sido uma vitória e os bombeiros ainda não tinham conseguido lá chegar. No entanto, não houve palmas nem gritos de felicidade. O que se passou a seguir foi, uma vez mais heróico. Um grupo de pessoas que não se conheciam de lado nenhum e ajudavam uma casa, pegaram nos baldes e foram atrás das chamas. Era esse o nosso inimigo e o objectivo era evitar mais destruição até os bombeiros chegarem.

 

 

E lá fomos, munidos de água em direcção às chamas. Nesse terreno baldio, com casas um pouco atrás, havia uma coluna de pessoas a combater as chamas. Não eram bombeiros nem profissionais. Eram ''só'' pessoas. Juntei-me a eles e, pouco a pouco, fomos conseguido combater as chamas. É por esta altura que chegam os bombeiros. Chamemos-lhes cavalaria pois as pessoas continuaram lá a ajudar os bombeiros até não haver mais fogos.

 

E acabou. Já não havia mais fogos. Sentia-me bem. Tinha ajudado e tinha sentido uma espécie de camaradagem quase obrigatória. E sim, obrigatória, pois foi esse o sentimento que me levou, no início, a pegar em baldes - como é possível assistir a outras pessoas em apuros e ficar impávido, a tirar fotografias?

 

Ao voltar à estrada principal sentei-me para recuperar o fôlego. Os olhos ardiam-me e o peito gritava por ar. Não ouvi um obrigado nem palmas das pessoas que ficaram a ver, feitas público como num concerto. Nem eu, nem ninguém. Olhei à minha volta e vi pessoas a quem passei baldes de água. Não precisámos de agradecimento. Ontem, eu e outros fizemos o mais correcto. E isso, é impagável.

 

Ontem, em Setúbal, vi heróis. Homens e mulheres desconhecidos que arriscaram o seu bem-estar para impedir uma tragédia. Ontem, senti orgulho por ter estado ao lado dessas pessoas.

 


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Jul 12
publicado por José Maria Barcia, às 22:58link do post | comentar

Não sei quem é este historiador, um tal de Luís Vaz. Mas sei que o que ele entende como certo está completamente errado. Eu, como neto do comandante do avião desviado por Palma Inácio, sei que as conclusões e teses deste historiador são pura e simplesmente, mentira.

 

Sobre o desvio do avião, há várias falsidades. O artigo está aqui, para consulta.


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