Expressa o facto no momento em que se fala. Pessoal e transmissível.
25
Set 12
publicado por José Maria Barcia, às 00:28link do post | comentar

 

As cartas de amor são difíceis de escrever. Só parece fácil com aqueles que se usam do amor como o sentimento mais simples. São esses que provocam inveja nos outros. Estes, os que pensam o amor como um cientista pensa a ciência, serão sempre amargurados com os primeiros. Pensam como pode ser possível ser tão fácil escrever uma carta de amor. Ser tão honesto, tão cor-de-rosa e ao mesmo tempo tão cru na descrição da necessidade de complementaridade no outro. Para esses, o outro é quem os faz completos. Vulgo cara-metade.

 

As cartas de amor são difíceis de escrever quando deveriam ser fáceis de sentir. Declamar a entrega sentimental de um a outro deveria ser tão inocente como fazê-lo. uma carta de amor a sério é agarrar o visado nos versos. Para se escrever um texto assim, não é preciso ser poeta nem tanto dominar as letras. Basta sentir. O amor em si – enquanto condição e não como fim – deveria fazer voar. Ser livre de poder ir a qualquer sítio. O objecto amado, reciprocamente, se torna  o amador. A amada está num pedestal. O amor é sorte. E é sorte conseguir escrever cartas de amor com a facilidade de respirar.

 

Dizem muitas coisas sobre o amor. Dizem que dói ao mesmo tempo que promovem a felicidade de amar e ser amado. Então uma carta de amor é esta dicotomia entre dor e prazer, entre sofrimento e felicidade, entre depressão e êxtase. O amor é uma coisa muito estranha. E como tal, as cartas de amor são bipolares. Notar-se-ia, nas verdadeiras cartas de amor, o ressentimento de discussões mais resolvidos e, uns parágrafos depois, na indiferença perante tais quezílias. Antes, na primeira frase, uma declaração que dispusesse todas as defesas a favor do outro. ‘’Eu amo-te’’ ou ‘’És a luz da minha vida’’ – expressões lamechas – deveriam ser regra na construção de cartas de amor. Ponto número 1 do manual de escrita de cartas de amor: declarar amor do modo mais irritante para quem não conhece ou tem o dito. Por fim, deveriam acabar com uma rendição poética-sofrida em que o escritor se rendia, formalmente, ao óbvio. A pessoa a quem é escrita a carta é maior que o mundo. Aliás, para quem escreve a carta – e a escreve a sério -  o mundo é mínimo comparado com ele ou ela que lê.

 

As cartas de amor são difíceis de escrever porque existe uma generalidade de medo na entrega no amor. É difícil arrancar metade de si e dar a outro. Deve doer. Dói. Nessa desistência de metade de nós, há o sacrifício exigido pelo amor. É essa dor que faz as cartas de amor serem boas. Isso ou a ignorância do que se está a dar. Aos primeiros, depois de dado, nunca mais retorna. Está entregue e lá vai ficar para sempre quando a eternidade é muito tempo. Para os segundos, os virtuosos que nada sabem e apenas sentem, podem dar e ir dando. Não sabem, não sentem falta. Esses são os verdadeiros amadores e escritores de cartas de amor. Porque não dói dar metade e porque conseguem ter várias metades.

 

São os lamechas e os tontos que sabem o que é amor. E só o sabem porque não pensam nele. Não o esquematizam nem o analisam. É como respirar. É inconsciente e é isso que os mantém vivos. Não há melhor carta de amor que daquele ou daquela que está apaixonado. Não pensa, só sente. Aos outros, só nos resta invejar.


20
Set 12
publicado por José Maria Barcia, às 14:04link do post | comentar | ver comentários (1)

Imagina que eras tu a sair da cama nesse dia. Desanimado, caminhavas para o duche para acordar. Depois da cama, resta-te apenas o abraço quente do chuveiro antes de enfrentares o dia que ainda não começou.

 

Sais de casa e a claridade ainda te dói nos olhos. Pensas que aquele era um bom dia para teres ficado na cama agarrado aos teus. Estás, neste momento, em processo automatizado. A ir para o trabalho, a ir para a faculdade, a ir para a escola. Para quer que estejas a ir, podias estar feliz por não estar a fazer esse caminho.

 

Consegues imaginar-te? É fácil, provavelmente passaste e ainda passas por isto.

Agora tenta de uma maneira diferente. Tenta imaginar o que é um dia em que sais de casa com os olhos a lacrimejar. Fechas a porta de casa, sabendo que os teus sonhos não foram avante. Não és metade do que imaginaste ser. A culpa pode ser tua. Podes ter tomado decisões erradas ao longo da tua vida. Ou tiveste azar, apenas.

 

Se puderes, hoje olha para os teus filhos. Para os teus pais, irmãos ou irmãs. Olha para os teus avós ou para os teus amigos mais chegados. Até onde irias por eles?

 

Se não por ti, então que seja pelo outros. Há dias que não acabam. Em que a ansiedade de ir dormir é maior que a vontade de estar acordado. A dormir podes sonhar. Deves sentir uma força igual à necessidade de comer de ser para ti e para os outros. Para impedir tristeza. Só e tão simples quando isto. Não és responsável pelos outros mas deves preocupar-te. Não precisas de ser herói conhecido em capas de jornal, precisas de saber o que fazer quando o momento te perguntar: ‘’E agora, queres ser herói?’’. Ninguém te vai dar crédito por isso pois ninguém vai ver. Mas não é preciso. Talvez, nesse dia, durmas melhor. E aquele ou aquela que ajudaste também. Talvez essa pessoa, nesse dia, não chore. Por tua causa.

 

Chega?

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19
Set 12
publicado por José Maria Barcia, às 17:31link do post | comentar


Roubado do 31.

publicado por José Maria Barcia, às 12:33link do post | comentar

 

Faltam tomates aos portugueses. Não a todos, claro. Há casos de pessoas com uma coragem acima da média do país. Veja-se o caso mais recente de Adriana Xavier, a jovem estudante de 18 anos que abraçou Sérgio, o polícia de choque com coração mole. Foi preciso coragem da parte dos dois. Ela, porque abraçou uma figura potencialmente violenta. O segundo, porque se deixou abraçar, naquele momento, naquela situação.

 

A fotografia dos dois correu o mundo. Mostrou que, afinal, Portugal ainda tem alguma coisa para ensinar. Depois do 25 de Abril, onde se mudou de regime com flores, mais uma vez, nós, os portugueses fomos diferentes. Há amor no protesto português. A violência pode ser trocada a qualquer momento por um abraço sincero.

 

Adriana, a Pocahontas portuguesa de cabelos compridos e encaracolados, pousa a mão no coração de Sérgio. A figura primeira de autoridade à porta da troika, mesmo com colete à prova de bala, deixa-se contagiar pelo toque. Mesmo com aquele equipamento, Sérgio sentiu. Mérito de Adriana, que teve coragem de o tocar. Porque estava certo fazê-lo. Porque sentiu que ele merecia ser tocado. Mérito dele, porque deixou.

 

O resto está na imagem. Ele não a empurra, não grita com ela, não foge. Rodeados por fotógrafos e manifestantes, jornalistas e outros polícias, aquele momento foi só deles. Durante os poucos segundos que falaram, acredito que, para eles, o resto não estava lá. Estavam sozinhos num instante que não doía. Não havia barulho, nem confusão. Nesse momento a preocupação dos dois desconhecidos era de proteger o outro. Adriana sentiu a tristeza no olhar de Sérgio e, quase obrigada por um inocência cada vez mais rara, abraçou-o. Sérgio não quis que ela se magoasse. Nem por ele, nem pelos outros. O toque suave no braço de Adriana enquanto olha em seu redor conota este sentimento de protecção. 

 

Enquanto Adriana parece rendida à fragilidade dentro do equipamento de Sérgio dizendo quase ''Eu sei que és como eu'', Sérgio honra a farda, honra a própria honra. Agradece o gesto de Adriana fazendo o que melhor sabendo: protegendo.

 

Esta fotografia correu o mundo. É uma imagem muito bonita, do tamanho do abraço deles. Que seja exemplo. Que emocione. Que tenha o mesmo resultado que teve comigo - ainda vale a pena. São momentos destes, imortalizados por uma câmera que nos fazem crer que ainda vale a pena. O que quer que seja, desde que seja bom. O exemplo de Adriana e Sérgio é bom porque é sincero. É amor, no sentido mais belo da palavra. É amor por um desconhecido, retribuído à desconhecida.

 

A realidade é dura. Para ela, um futuro incerto e cada vez mais assustador, para ele um manifestação onde tomates e petardos, garrafas e pedras voaram na sua direcção. Por momentos, nada disso interessou. E só foi preciso um abraço.

 

À Adriana e ao Sérgio, obrigado.


18
Set 12
publicado por José Maria Barcia, às 20:34link do post | comentar

 

 

Fui à manifestação do último sábado. Mais que uma mera manif, foi um protesto. Mais que isto, foi um desabafo. Em Lisboa, onde estive, as pessoas desabafaram. Pouco interessou o tema que levou mais de meio milhão de pessoas à rua - ''que se lixe a troika, queremos as nossas vidas de volta''. Aliás, este título é injusto, na medida em que os nossos credores acabam por ser os mais honestos neste panorama de pré-crise política e institucional.

 

O governo falho na aplicação das medidas de corte da despesa. Aquilo que hoje se considera austeridade, é para o governo uma conta tecnocrata entre défice, juros e impostos. Para este governo, tudo o resto tomou um lugar secundário. Acima disto, está uma opinião generalizada de que não há ministros bons. Começando, obviamente, por Miguel Relvas. O ministro da licenciatura por equivalência, pressões aos jornalistas e ligações demasiado debochadas a grupos de poder como a maçonaria, é o primeiro da lista de desagrados. Num país civilizado, isto seria intolerável. O estilo mafioso de agir de Relvas devia fazer escola em Sicília. Provavelmente, com equivalência.

 

Em segundo, os ministros do CDS: Paulo Portas, Assunção Cristas e até Pedro Mota Soares. Se o primeiro ainda não percebeu que um coligação implica jogo de equipa e não jogo de política, a segunda não sabe o que está a fazer. Creio que as suas motivações podem ser melhores - católica praticante e da escola da democracia-cristã - só tem um problema: não seria ministra para este tipo de governo. A agricultura continua um desastre e não é por rezar que chove mais ou há menos incêndios. Por ultimo, Pedro Mota Soares, eleito o melhor deputado na legislatura passada, embrulhou-se no código contributivo, fazendo aquilo que está à mostra: cada vez menos liberdade por cada vez existirem mais e mais altos impostos. Veja-se o caso dos recibos verdes, tão bem explicado por Alexandre Borges, no 31 da Armada.

 

De seguida, Vitor Gaspar. O ''ditador'' alcunha carinhosa dos colegas em Bruxelas, entrou na cena política como um perfeito desconhecido. A sua maneira de falar, aliada a parecer demasiado sério e até com um humor europeu simpático, transformaram-no no preferido de muita gente. É graças a ele que as duras medidas foram toleradas. Se Gaspar diz, então deve ser verdade, ouvia-se. Infelizmente (para ele), o estado de graça acabou. O ministro é o grande culpado da manifestação de 15 de Setembro.

 

Por último, Passos Coelho. Admito que no inicio achava que o homem ia ser diferente. A sua equipa de assessores prometia muito. Era o liberalismo com tomates que este país precisava. Era um governo que ia fazer muitos inimigos mas os inimigos certos. Eu estava errado. Porque eles também. Faltou estudo a este governo. Faltou, talvez coragem. De certeza que faltou vergonha na cara.

 

Em relação aos outros ministros nem vale a pena falar. De Álvaro a Aguiar-Branco, passando por Paula Teixeira Pinto, o conjunto de erros, incompetências e simples idiotices fala por eles.

 

Portanto, será justo admitir que este governo - tal como o anterior - tem os dias contados. Já chega. A solução apresentada não é do agrado dos portugueses. E a razão da manifestação, protesto ou desabafo de Sábado passado é essa mesma. O que estão a fazer está mal. Prova disso, mais que o número de gente envolvida, foi o tom. O tom, desta vez, foi agressivo. Quando 500 mil pessoas gritam o hino do país com raiva, alguma coisa está mesmo muito mal. Talvez seja hora de ter cuidado com os próximos passos, Passos.

 

O povo perdeu a paciência mas ainda não perdeu a calma. Ainda.


13
Set 12
publicado por José Maria Barcia, às 16:06link do post | comentar

 

Já se disse muito sobre o povo português. Como qualquer outro, temos as nossas qualidades e defeitos. Somos assim e assado. Conseguimos ser os melhores do mundo e ao nosso lado, na mesma equipa os piores. Temos orgulho e vergonha, muitas vezes da mesma coisa. Somos complicados, somos simples. Portugal é um paradoxo. Não há dois portugueses iguais. Não há ‘’o português normal’’. Ninguém, aqui na ponta da Europa, aceita ser só mais um. Ao mesmo tempo, somos os primeiros a acomodar ao estado em que nos encontramos. Não somos a Grécia. Todos os dias vemos a nossa liberdade a cair um bocado mais.

 

Cada dia que passa, as dificuldades aumentam. Cada dia que passa, há sempre um ‘’mas’’. Por exemplo, os impostos aumentam mas ainda dá para ir para a praia; perdi o emprego mas não gostava muito dele. Há, neste sebastianismo alegre, um sentimento de que as coisas podiam ser sempre piores portanto, vamos com calma.

 

Acho que já chega. Basta de tolerar o que não merece. Basta de ter medo. Basta de austeridade.

 

Nem falo por mim, felizmente tenho sorte de me faltar pouco. Falo por quem vejo a passar fome, a chorar por não conseguir alimentar os filhos ou simplesmente por não ter dinheiro para um café. Quero falar de quem tem os sonhos destruídos porque é cada vez mais difícil seguir esse caminho. Se Portugal merece, porque se tolera os corruptos, os ladrões, os saqueadores do meu e nosso país? Merda de país que nada faz quando as coisas são evidentes. País pequeno, esta coisa na arrecadação da União Europeia. Onde está a grandeza que só se encontra nos livros de História? Onde está a virtude num povo que sai a rua mas nada faz?

 

No fundo, somos todos cobardes. Somos acomodados e preguiçosos. Já chega. Falta-nos educação e inteligência. Falta-nos civismo. Só um povo consciente pode mudar as coisas. Acordem. Às vezes custa. Mas desta vez vale a pena. Há dias que tenho orgulho em ser português. Que defendo a minha pátria como se defende a família. No entanto, nos outros dias, tenho vergonha.

 

Portugal é o aluno que podia ser dos melhores mas que se desleixa. É um mau aluno. Portugal sou eu. És tu. Somos todos. E se somos todos e isto continua assim, a culpa não é só de quem tem cadeira em São Bento.

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04
Set 12
publicado por José Maria Barcia, às 15:38link do post | comentar

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